Turismo doméstico puxa retomada do setor

Texto: Portal do Comércio


Na última edição do ano da série de debates E Agora, Brasil?, especialistas, executivos de empresas e representante do setor de turismo debateram as perspectivas do turismo e a recuperação do setor no pós-pandemia




A 5ª e última edição do ano do E Agora, Brasil?, realizada no dia 10 de novembro, discutiu o reaquecimento do turismo no País. No novo cenário, com o avanço da vacinação no País, maior controle da pandemia e diminuição das medidas restritivas, o desejo do brasileiro de voltar a viajar ressurge com força. O Turismo tem fortes expectativa com a proximidade das festas de fim de ano e das férias, período de alta temporada.


O evento, em formato digital, debateu o que o setor precisa não só para recuperar perdas em razão da pandemia, mas para avançar. As lideranças do setor convidadas a participar foram Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) e diretor da CNC, Carina Câmara, coordenadora da Câmara Temática de Turismo do Consórcio Nordeste, Magda Nassar, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), além dos executivos Jerome Cadier, Ceo da Latam Brasil e Leonel Andrade, presidente da CVC. Realizado pelos jornais Valor Econômico e O Globo, com patrocínio da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Federações e demais entidades do Sistema Comércio, o E Agora, Brasil? teve mediação das jornalistas Mariana Barbosa e Maria Luiza Filgueira.


Alexandre Sampaio disse que o setor de alimentação sofreu muito no período da pandemia, com as empresas tendo que se reinventar e entrar no mercado com delivery.


“Muitos empresários acabaram fechando seus negócios, mas o processo de recuperação desse setor está em curso, com novos investimentos surgindo, com restaurantes sofisticados, principalmente nas grandes capitais”, disse Sampaio. “Há um processo de renovação e retomada de alimentação fora do lar”.

Adaptação da hotelaria

Desde março de 2020, com o início do distanciamento social por conta da pandemia, o setor de hotelaria também teve que se adaptar. “Havia restrições de capacidade por conta de decretos editados pelas prefeituras e governos, mas houve nichos, como o de profissionais que seguiram trabalhando presencialmente em alguns setores, como saúde e petróleo, que tinham que respeitar o período de quarentena para o retorno para casa, o que deu uma aquecida no setor em algumas regiões”, afirmou Sampaio.


O presidente da FBHA, que é também responsável pelo Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade (Cetur) da CNC, destacou a importância de se buscar uma legislação adequada, que estimule o desenvolvimento do setor, o que trará grandes benefícios para o País. “Precisamos da inclusão da hotelaria na modalidade tributária que permite desconto no recolhimento previdenciário”, defendeu Sampaio. “temos também que avançar no parlamento com a Lei Geral do Turismo e dar continuidade a práticas que estão alinhadas com a Organização Mundial do Turismo, como o conceito dos Destinos Turísticos Inteligentes. E vencer a máxima de que as mudanças de governo significam a descontinuidade das ações. Precismos manter o que foi começado e está dando certo”, frisou Sampaio.


Um dos pontos levantados no debate é que a retomada do setor se dá pelo mercado doméstico, impulsionado principalmente pelo turismo de lazer, com o ecoturismo, turismo de natureza e de praia e sol em destaque. Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, acredita que o cenário deve se dividir em dois neste momento: voos domésticos, que estão aumentando com uma ótima perspectiva para o ano que vem, e os voos internacionais, que têm uma recuperação mais lenta e com uma projeção melhor apenas para 2023 e 2024. “As pessoas estão planejando viagens mais para o Brasil do que para o exterior, as burocracias e as barreiras de outros países por conta da covid-19 ainda afetam muito na hora da decisão de uma viagem nacional ou internacional”, disse Cadier, informando que a Latam vai passar de 46 para 56 destinos brasileiros cobertos pelos voos da empresa.


Outro ponto importante é a mudança do perfil das viagens, com as pessoas viajando mais por turismo do que em viagem de negócios. Com as empresas em home office, a maioria das empresas utiliza reunião por aplicativos. “Isso faz com que as viagens a trabalho diminuam. Talvez com a volta das grandes empresas em escritórios isso possa se modificar”, disse Cadier.


Custo Brasil

O CEO da Latam lamentou que, em muitos aspectos, o Brasil desperdiçou algumas chances durante a crise. “O país que está saindo da pandemia é o mesmo de quando a crise começou. O custo Brasil é gigante. Precisamos enfrentar a ineficiência, tarifas e custo de combustíveis em alta. As passagens aqui são mais caras porque os custos são mais altos”, disse.


Magda Nassar, por sua vez, destacou que o brasileiro já está sentindo o desejo de viajar mais. “Nós realizamos uma pesquisa com os associados e a grande tendência no momento é de viagens em família”, disse. “As pessoas ainda buscam fortalecer seus núcleos e ficar juntos”.


Atualmente, 40% dos brasileiros realizam voos internacionais, mas com a abertura de países como Argentina e Estados Unidos o número pode ser ainda maior. “Esses países são os principais destinos internacionais e, com essa reabertura, nós acreditamos que os voo internacionais deem um salto. O que precisamos é que todo o País esteja vacinado, porque isso torna uma aceleração mais rápida na retomada e facilita o acesso a outros países”, afirmou a presidente da Abav.


Demanda de final de ano

O presidente da CVC, Leonel Andrade, acredita que o momento é de otimismo, com uma forte demanda reprimida. “Acreditamos que, com a confiança da população em voltar a viajar, no final do ano vai faltar avião e vai faltar hotel, o que para o setor é um desafio, mas é também motivo de muita celebração, pois mostra que a recuperação está acontecendo”, disse Andrade.



Para ele, os desafios que teremos serão em longo prazo. “Após essa demanda reprimida do verão passar, nós deveremos ser muito criativos em produtos e serviços, além do setor ter que investir pesado em comunicação, pois a pandemia não acabou”. Segundo Leonel, o Brasil precisa de planejamento, com projetos consistentes, que atraiam investimentos e parcerias.


A coordenadora da Câmara Temática de Turismo do Consórcio Nordeste Carina Câmara, Carina Câmara, concordou, lembrando a importância da continuidade das ações e projetos, independentemente dos governos que se sucedem. Na realidade mais imediata, ela avaliou que o turismo doméstico vive uma explosão na demanda. “Desde junho, nós tivemos uma procura muito grande, chegando a faltar leitos, e com algumas empresas deixando de vender por falta de hospedagem, principalmente nos destinos menores”, disse Carina.


A retomada do turismo no Brasil começou por destinos ligados ao ecoturismo e ao turismo de aventura. “Nos Lençóis Maranhenses, Jericoacoara e Rotas das Emoções, em julho, nós deixamos de vender por falta de hospedagem”, confirmou Carina. “Acredito que isso ocorreu pela falta de possibilidade de fazer viagem internacionais. Como o brasileiro não pode viajar para fora, ele se voltou para conhecer o brasil.”